Casas de recuperação: a cura em nome de Deus








Dependentes químicos conciliam tratamento baseado na religião com trabalhos ambulantes nos ônibus em busca de dignidade e sustento do tratamento, no Recife


Antônio não era milionário, mas até vivia bem. Tinha um Opala imponente, capaz de arrastar olhares pelas quadras meticulosamente desenhadas da capital nacional. Na mesa da sala, escrevia os quatro nomes que lhe faziam homem com cocaína. Cheirava um de cada vez, os intercalando com uma dose de Whisky. Não sabe bem quando, nem como, mas tem certeza que em algum momento da vida o hábito lhe tomou tudo. Casa, carros, dinheiro, os celulares que, irritado, jogava contra as paredes, três filhos e dois netos. Só restaram as tatuagens e o gênio forte. Hoje, os movimentos agitados foram substituídos pelo tremor de alguém em abstinência, separando doces de forma sistemática, colocando-os dentro de um saco com a palavra do Senhor em uma sala espaçosa do bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. É um dos seis homens em tratamento para dependência química no projeto Liberte-se, da igreja Luz do Mundo, uma das casas de recuperação que utilizam preceitos religiosos para tratar o problema de saúde pública. Os doces vão para as mãos de centenas de passageiros de ônibus, ao valor simbólico de R$ 2, que custeiam os tratamentos, por uma chance diferenciada de cura das drogas – não por remédios ou por médicos, mas pela Palavra de Deus.


A forja do caráter explicada pelo diretor é perceptível a partir da terceira fase do processo de recuperação, de quatro a seis semanas após a chegada do paciente. Naquele momento, as crises mais graves de abstinência já passaram e é possível saber melhor qual o temperamento de cada um. O comportamento na rua é previamente avaliado e quem demonstra menos descontrole quanto aos desafios do mundo é finalmente confiado com cerca de 60 kits de doces. Como na maioria dos trabalhos, saem após o café da manhã, voltam para almoçar e depois saem novamente. A agenda fora desses horários é cheia. Nas terças, quintas e domingos assistem ao culto, nas segundas e quartas, assistem a vídeos motivacionais ou filmes. No sábado, têm um dia de lazer. Algumas conversas em grupo são coordenadas pelo pastor, como uma forma de medir a saúde mental de cada um. Ali, não há tarja preta ou psicanálise. “Nosso remédio é a Palavra, nosso psicólogo é Deus”, conta Deivyson.

O único que ainda não pode sair para vender, por orientação da família, é Antônio. Para ele, cuja droga mais difícil de largar, aos 42 anos, foi o álcool, resta o trabalho de cozinhar. Após passar por uma série de casas de recuperação (inclusive, outra relacionada à religião), ele é o retrato da dualidade de alguém que tenta recuperar quase três décadas de abusos químicos com horas diárias de cultos, montagem de kits e conversas com diretores. Ao mesmo tempo que conta peripécias de uma vida regada a drogas, fala que quer ser batizado. “Mais de duas vezes já previram que eu serei ministro, usarei minha voz no púlpito”, recorda. Poucos minutos depois, lembra das tatuagens que ainda vai fazer, antes do batismo. Pergunta uma, duas, cinco vezes para qual lado tem uma parada de ônibus ou por onde precisa andar até chegar ao aeroporto. “Ainda planejo visitar Machu Picchu (no Peru), onde vive um amigo meu da faculdade”, comenta pouco antes de perder a linearidade e lembrar de como o projeto de libertação ajuda mães desesperadas: “Os irmãos sabem mais do que eu, mas acho que é em um versículo de Apocalipse que tem uma passagem sobre isso…”.




Fonte:http://curiosamente.diariodepernambuco.com.br/project/casas-de-recuperacao-cura-em-nome-de-deus/

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